Eram 21:40 aqui e 21:50 lá. Não entendia o porquê de eu estar no lado mais cedo.
Como já disse, eram 21:40. Essa era a hora que marcava o grande relógio da estação de metrô no lado que eu esperava. Costumeiramente, eu já estava sentado e observando, pois observar é algo que sei muito bem fazer quando não estou com preguiça. Basta uma ponta de preguiça para eu desperceber muitos detalhes e, ás vezes, nem tanto detalhes. Então era isso: eu esperava sentando e observando, o metrô naquela estação, vazia praticamente, depois de um dia de trabalho. Mas nada que me cansasse a ponto de não querer observar. Estava disposto.
Não nego que a falta do que fazer, e principalmente a falta do que fazer numa espera, como essa, desnorteia de qualquer senso comum e/ou visão normal do mundo que grita em presença de medo e de alegria também. E foi desnorteado do senso e com a tal visão que reparei o outro lado. O outro lado da estação. Você é obrigado a olha-lo, pois você é obrigado a estar à frente dele. Porque por uma obrigação de senso comum não desnorteado ele é paralelo ao outro. O lado de lá, que é fisicamente igual ao lado daqui, é posto em frente. Onde quer que você esteja. Uma obrigação.
E mais uma obrigação (e como eu odeio obrigações!): do outro lado tinha um relógio também. Obrigatoriamente iguais, os relógios marcavam horas diferentes.
Um susto. Foi isso que me veio depois de um olhar clínico. Num mesmo espaço físico, numa distancia não muito grande, dois relógios idênticos (obrigação?) com horas diferentes. Dez minutos colocavam-se à frente num dos relógios, fazendo o outro ficar num passado, também não muito distante, mas um passado. E eu estava nele. E revolta, sim, ela, tomava-me. Pouca, mas existente.
Fiquei a observar, sentado, o andar dos ponteiros. Fechei minha visão num só enquadramento: os dois relógios grandes da estação. Não existia ponteiro de segundos, fato que me afligia pela espera inquieta do andar dos ponteiros de minutos. A cada passo, um suspiro. Passos idênticos, obrigatoriamente idênticos e horas diferentes.
As poucas pessoas que ali estavam não reparavam nessa falta de ordem? Talvez não. Melhor não. É, não, não definitivamente e que não queria que elas olhassem. Se fizessem, por favor, teriam que ser discretas. Não queria percebê-las. Pois aquilo não haveria de ser mudado. Eu percebi que não havia. Os relógios teriam que continuar assim loucos, assim diferentes, assim não obrigados. Assim vivos.
Eles eram corajosos. E muito. Era 21:43 no que estava do lado que eu estava na estação e 21:53 no do outro lado. Eram relógios, eram objetos, viviam a rodar dentro de um mínimo raio circular. Mas eram diferentes. Não fisicamente comparando os dois, idênticos eram. Eram diferentes por outro motivo: eles ousavam. Sendo objetos e sem vontades próprias, eles ousavam. Eram a diferença naquele espaço obrigatoriamente igual. Era disfunção na normalidade do igual. Admirei-os por isso e percebi mais.
Percebi que não se tratava de delimitar passado e futuro, a função dos dois. Os dez minutos, atrasariam pouco alguém, ou adiantariam pouco. Existente, porém pouco. Pouco suficiente para pacientar o adiantado e despertar o atrasado. Colocando-se em qualquer um dos dois lados da estação, aqueles dois relógios traria benefícios. E ele me despertou. Despertou a ousadia. Fui despertado não por quem, mas pelo que ousava. O relógio “atrasado” não era alguém, era algo. Algo que fez acordar em mim a necessidade de ousadia.
Eram 21:45 no relógio de cá, quando o metrô chegou. Entrei e sentei-me logo. Olhei brevemente as poucas pessoas do outro lado. As quais o relógio de lá os pacientaria, mesmo sem disso soubessem. Olhei para baixo e sorri.
O metrô partiu. Levando-me para outras estações. Atravessando os dois relógios. E seguindo. Levando também as pessoas que só percebem as horas, obrigatoriamente.